O Tao dos Dados, Livre Agência e Sandbox

Em verdade, em verdade eu vos digo, que é necessário ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante — Nietszche, Assim Falou Zaratustra

Recentemente, através das hábeis mãos de uma das muitas amizades conquistadas em mesas de RPG, reencontrei a prática das artes marciais. E entre seus ensinamentos, que não apenas abrangem mas entrelaçam a prática esportiva das artes marciais com sua base intelectual (filosófica, religiosa, espiritual) e até com defesa pessoal, me privilegiou com um em particular — abandonar a idéia de que as coisas não estão acontecendo da maneira que deveriam.

"O Tao que pode ser descrito não é o Tao do Universo."

“O Tao que pode ser descrito não é o Tao do Universo.”

Não sou entendido em Budismo, Taoísmo e disciplinas afins. Flertei superficialmente com elas, há muitos anos, sem muito afinco ou sucesso. Mas gosto de pensar que abandonar as formas ideais que existem apenas na nossa mente, e focar no que é real, imediato e tangível, é uma daquelas lições que o tempo nos ensina e que todos podemos apreciar.

E o que tem isso a ver com mestrar uma sessão de RPG?

Como disse no post anterior, não acredito em estórias — isto é, em seqüências lineares de eventos — como bons guias para o mestre do jogo. Minha orientação como mestre está voltada para o espontâneo, e ser pego de surpresa, improvisando novos eventos e cenários que seguem logicamente as decisões dos jogadores, para mim faz parte da alegria de mestrar.

"O que eu faço com isso?" O que você quiser. Não precisa nem usar a areia.

“O que eu faço com isso?” O que você quiser. Não precisa nem usar a areia.

Em inglês, pegou-se emprestado um termo da indústria dos videogames: sandbox. Designa originalmente a onipresente caixa de areia dos playgrounds (o arquétipo do brinquedo “faça você mesmo”) e aplica-se àqueles jogos que, em vez de forçar um roteiro linear, apresentavam ao jogador um mundo fictício com o qual se poderia interagir na ordem que se bem entendesse. Apesar de popularizado por críticos e autores de videogames, os RPGs tradicionais não só o fazem há mais tempo, como esta é a forma original de se jogar RPGs. Ser a mais antiga não lhe confere nenhuma legitimidade, as questão é de gosto; mas certamente é a minha favorita!

Abraçar o caos que inevitavelmente segue a agência livre dos jogadores é ao mesmo tempo mais fácil e mais difícil do que pode parecer à primeira vista. Por um lado, liberta o mestre da necessidade de tramar uma estória com início, meio e fim, e de constranger os PCs a seguir um roteiro.

Por outro, requer planejamento o suficiente para sustentar o que eu chamo de “mundo vivo” — uma ambientação que tenha pernas próprias, que evolua ao longo do tempo em função das ações (ou inações…) dos PCs. Não é propriamente difícil, mas dependendo do escopo pretendido, pode ser trabalhoso. Em posts futuros falaremos sobre a criação e preparo de ambientações para campanhas do tipo sandbox.

Para evitar cair em contradição, é recomendável registrar os improvisos — do nome do estalajadeiro às leis do reino. Estudar as anotações entre sessões é uma oportunidade de elaborar esses improvisos e alinhá-los com o restante da campanha, enriquecendo-os com detalhes e conectando-os a outros elementos. Essa moderada atenção a detalhes torna o mundo fictício mais verossímil, e condutivo à imersão.

Convido todos a abraçar o caos, e sempre que possível compartilharei conselhos práticos sobre esse estilo de mestrar, escorados na minha experiência e na troca de informações com outros mestres. Todos aqueles que também tem experiências, conselhos ou dúvidas a compartilhar, estão mais do que convidados a deixá-los nos comentários!

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